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Sofrimento: Uma análise filosófica acerca da condição humana

Uma análise filosófica acerca da condição humana firmada no sofrimento

O SOFRIMENTO COMO REALIDADE EXISTENCIAL

Com freqüência os sonhos dos homens não são nada mais que pesadelos. Tornam-se, personagens de uma noite escura perene, que não se dissipa, mas persiste, resiste à resistência em si, de ser fortes em face das adversidades. Ele ensaia gritos com a ancia de exteriorizar o que tem de sufocante, interrompendo momentos efêmeros de satisfação. Todavia, esse brado, o pedido de socorro não sai. O que é exposto se firma numa aspereza digna de repulsa os afastado cada vez mais de si mesmos e deles, quem não são. Auxílio é a meta desejada. Um momento de paz, onde possa respirar e sentir que a vida por alguns instantes pode amenizar a dor que é intrínseca ao existir, pois sé sabido que esta mesma vida não pode ser um estado de felicidade permanente.

Experimenta-se isso em todos os momentos e fases da mesma. Com isso, infere-se a não existência de uma transcendência a possibilitar uma bondade natural no tocante ao ser do homem, ao contrário, o sofrimento, a dor e a angústia são os princípios pelos quais a vida do homem se funda. A felicidade, bem estar e satisfação são imediatas, efêmeras. Na verdade, o que é a felicidade? Muitos dirão: Ter alguém em quem confiar um bom emprego, ou fazer parte de uma família estável nas mais diversas instâncias. Percebemos que todas estas inferências dizem respeito a aspectos contingentes e oscilantes. Logo, como afirmar uma felicidade que parta de um princípio eterno, absoluto e imutável, se o que vigora é a instabilidade e o que permanece é o sofrimento?

Ao tratar do alvorecer de uma nova psicologia afastando-se da tradição que considera os fatos psíquicos anteriores a experiência do homem em face do mundo, Sartre inaugura uma percepção da emoção que se dá na esteira da responsabilidade do homem no tocante a sua própria existência, isto é, sendo a realidade humana encarregada de “assumir seu ser” (SARTRE, 2010.p. 22), logo, a realidade humana que é o ser, assume-se na medida em que se compreende. A partir destas investidas de Sartre e de sua ruptura com a psicologia contemplando princípios a priori, isto é, anteriores a realidade e a experiência do homem e, sobretudo, da concatenação proposta pelo autor versando antropologia e psicologia, entende-se, pois, este assumir a responsabilidade do homem no tocante a sua existência. Deste modo, o homem precisa compreender sua existência na mesma medida em que ele a assume. Nesta proposta, verificamos a compreensão do homem em face de sua existência por vias de sua condição sofredora, ou da consciência responsável pela significação na relação do homem com o mundo circundante, é necessariamente um sofrer enquanto nadificação e esforço do homem para constituir-se.

Não há nada fora da existência que a possa definir, ou um pressuposto de superação do sofrimento. O sofrimento aqui é percebido como realidade existencial. Quando sofremos, temos posse do nosso ser que está para o mundo que o serve com obstáculos constantes. Num primeiro momento somos tomados pela dor, mas por desdobramento nos tornamos hábeis a transpor as adversidades colocadas. O próprio ato de nascer implica uma dor. O feto é desvencilhado da mãe, a partir do corte do cordão umbilical, perde a segurança uterina e passa a sentir a dificuldade de respirar por si mesmo e de consumir seu próprio alimento.

Poder-se-á ser indagado este trabalho por cristãos, pois estes se apropriaram de dissertar sobre o sofrimento a partir da fé na paixão de Cristo, mas se tem aqui, nenhuma pretensão de se atrelar a essa descrição de passio, mesmo porque, toda consciência religiosa é a forma por excelência do pensamento alienado (KONDER, 2009. p. 80), isto é, a recusa da vida e de suas frustrações condicionalmente humanas, isto é, do próprio projeto do homem dominado e sobreposto pelo sistema vigente e opressão material, visando um recuo a uma realidade irreal fomentada pela consciência religiosa. Aqui se atesta a recusa do homem em ser humano, seu rompimento com a dor, com o gozo e tudo que lhe constitui livre, para atrelar-se a uma esfera irreal, é, pois, a renúncia do sofrimento existencial frente uma má-fé, um sofrimento permanente e alienado, uma vez que as esperanças se firmam numa falácia cuja tradição sustentou. Esta ilusão segundo Marx só seria superada quando houvesse a ruptura com a religião, sendo esta o “sol ilusório em torno do qual se move o homem enquanto não se move em torno de si” (MARX, 2005.145).

Na verdade, a fé como pretendeu Marx apresentar, é a alienação do homem em detrimento do seu sofrimento objetivo. Para este autor moderno, este estado de alienação só seria superado quando o sistema econômico permitisse isonomia, onde proletariado superasse sua opressão equilibrando as disparidades referentes à luta de classes. Ainda que consigamos uma igualdade resguardada por vias de bom senso, direitos positivos ou através de princípios da tradição, o homem não romperá com sofrimento, e sendo assim, é preciso que este não rompa com a sua condição, e a supere não reforçando seu sofrimento, vivendo em função de uma mentira, mas projetando-se objetivamente superando a facticidade por vias de suas ações.

Ao existir o homem está lançado no mundo e é submetido à força de uma negação inerente a esta colocação, o nada. Somos nada em potencial, aberto a uma construção. O “homem está condenado a ser livre” (SARTRE, 2010.p.33), isto é, condenado por seu desamparo no mundo, por não haver nada fora ou dentro de si que legitime sua existência. É livre, pois, está entregue ao mundo inteiramente responsável por tudo que fizer. Deste modo o homem não encontra nenhum apoio nem fundamento pré-estabelecido, cujo aqui poderíamos chamar de natureza humana, onde possa encontrar refúgio ou orientação, sendo assim, o homem encontra sua real condição, humana e sofredora, isto é, posto numa situação de tensão onde se vê incitado a construir e inventar sua própria vida. Portanto reconhecer a condição de existência sofredora é encontrar a possibilidade de transcender esta mesma condição através da consciência orientada a um fim, neste caso, não permanecer estanque em face dessa dor existencial, mas superá-la através da ação e da responsabilidade versando a si mesmo e a outrem. Quando este trabalho se refere a não existência de estatutos a priori sob os quais se firmam a existência humana, nos voltamos a Sartre, que declara:

O existencialismo ateu que eu represento é mais coerente. Ele declara que, mesmo que Deus não exista , há ao menos um ser cuja existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por algum conceito, e que ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana. Que significa, aqui, que a existência precede a essência? Significa que o homem existe primeiro, se encontra, surge no mundo, e se define em seguida (…). Assim não há natureza humana, pois não há Deus para concebê-la. O homem é, não apenas como é concebido, mas como ele se quer, e como se concebe a partir desse elã de existir, o homem não é nada além do que se faz. ( SARTRE, 2010. p. 25)

Deste modo, o homem deve incitar a si mesmo a transpor sua facticidade, isto é, sua colocação contingente no mundo, que implica no seu desamparo e sofrimento existencial, com vistas a constituir sua essência, seu projeto fundamental abarcando a si e os outros, constituindo, sobretudo, uma nova tábua de valores outorgados e criados de forma absolutamente humana, rompendo com as prescrições existentes num céu inteligível. Esta transposição é possível pela consciência que se volta ao mundo e o nadifica, numa constante situação de construção e descontração, numa permanente invenção. A este modo de ser, constitutivo de sentidos e significados em face da objetividade o autor cujo se recorre esta proposta, denomina Para-si, dito de outro modo, consciência que, constrói, reconstrói e reinventam, suas possibilidades nas mais diversas instancias de sua existência. Todavia, este constituir é marcado por um mal estar que se faz constante, amenizado por vezes, por sutilezas que nos forma apresentadas como felicidade. Contudo são tampões em relação à real condição do homem: existências sofredoras. Existentes, pois somos e isso basta. Contingencia? Sim, se fossemos criados imagem e semelhança de um ser eterno, nossa disposição seria também eternamente orientada à felicidade subjetiva e coletiva.

santidade

Entretanto, o que vigora é a insatisfação que oscila num momento, com o prazer, configurando assim um assumir a existência tal com ela é, isto é, longe de princípios metafísicos e afirmar o mundo como humano onde não mais a orientação por valores metafísicos que falseiam a real condição do homem, trágica e constitutiva, renunciando, assim, aos ideais ascéticos, ou melhor, rompendo com a crença em verdades absolutas e transcendentes como salvadoras da humanidade.

O homem é ameaçado a todo instante pela exterioridade, pelos outros, tradição, cultura de castração e politicidade que resulta ainda mais numa disparidade e a supremacia de um subjetivismo perigoso, Ficam sobrepostos por situações de constrangimento recorrente, mas sorri ainda sim. Por quê? Sobre esta questão pode-se dizer que ele se diz alegre por vezes e de fato se satisfaz em situações esporádicas, contudo, sobre a própria perspectiva neurológica e psicológica do sorrir, e aqui este trabalho se refere à obra Fantasmas no Cérebro – Uma Investigação dos Mistérios da Mente Humana – Ramachandran, V. S. ; Blakeslee, Sandra, percebe-se esta prática como um alerta que supera a dor num determinado momento. É sabido que o homem sorri para expressar seu alívio em face de alguma situação eminente ameaçadora, ou para alertar ao grupo no qual está inserido de que o fato a prestes a ocorre também não oferece perigo. Assim como nos mostra os autores da obra acima citada:

Apesar de toda sua aparente diversidade a maioria das piadas e incidentes engraçados tem a seguinte lógica: em geral você ilude o ouvinte ao longo do caminho de expectativas, aumentando lentamente a tensão (…). Quanto mais longo e tortuoso for o caminho ilusório de expectativas, “mais engraçado”o desfecho final. (…) A pessoa que está rindo praticamente anuncia sua descoberta de que houve um alarme falso, de que vocês, companheiros, não precisam desperdiçar sua preciosa energia e recursos reagindo a uma falsa ameaça. (RAMACHANDRAN, V. S.; BLAKESLEE, Sandra, 2002.p. 259)

Posto isso, o homem está num constante estado de tensão, propiciado pela nossa existência sofredora, ou seja, existir pressupõe logo, sofrer. Mesmo nossos supostos momentos de felicidade trazem em si uma tortuosa expectativa que findará na suspensão de nossa existência, contudo, logo o homem volta a si através de sua consciência e retoma sua condição efetiva, isto é, constitutiva através da dor. Entretanto, existir e sofrer não designa uma postura quietista ou derrotista em face da vida humana , ao contrário, a dor, a tensão vem a ser a possibilidade de criar tendo em vista o campo aberto de possibilidades.

O SOFRIMENTO DO SER AUTÊNTICO E DA BOA-FÉ, NA MESMA MEDIDA SEUS CONTRÁRIOS.

Utilizar-se-á por vezes o homem, mecanismos para amenizar a dor de ser. A inautenticidade é o maior destes. Ser, aliás, não ser em detrimento da exterioridade é a absoluta certeza, de anestesiar a dor vigente sendo extensão morta, passiva do mundo que objetivo. Escolher não escolhendo, é eficazmente modo de superação do sofrimento existencial, entretanto, quando o momento anestésico passa, o sofrer se triplica, pois, havia um mal intrínseco ao existir que foi somado a dor de outrem e as de toda existência externa ao próprio Ser. Construir uma ligação com outrem de modo que tal laço revele a todo instante a incompletude das relações, também é experimentar a relação do sofrimento através do conhecimento do outro como ele mesmo, isto é, nas relações de alteridade. Por vezes o homem se detém em suas relações a tentar realizar a felicidade alheia, ou então, fazer o outro sentir sua felicidade. Não seria isso uma violência? Quem nos diz amar incorre neste erro? Bom, é uma violência de fato, não podemos obrigar a ninguém experimentar o que chamamos a pouco de tampões da real condição, pois cada um de nós é absolutamente liberdade de construírem-se, como nos mostrou Sartre. A felicidade não é contagiante é uma opção, não acordamos felizes, mesmo porque, como já se atestou neste trabalho, nossa realidade factual impede tal cotidianidade. O que ocorre é a escolha por transpor num dado momento, mesmo que de forma efêmera, esta condição.

É necessário, pois, se emaranhar na filosofia existencial para reconhecer o que é, de fato, a autenticidade e a partir de tal pressuposto apresentar o seu contrário, isto é a inautencidade. Entende-se por autencidade em Heidegger o assumir seu ser num modo existencial de compreensão, sendo Dasein ¹ o Ser que possui sua existência e sua essência em sua configuração, sendo, pois, existência que conhece a si mesma e não um ente dado, mas sabe sobre si firmando-se em seu modo de ser e em suas possibilidades.

A compreensão do ser se abre por meio das possibilidades da estrutura existencial, ou seja, na projeção do ser que está em jogo. O ser, portanto, está num movimento constante de descoberta acerca de si.

Em Sartre a autencidade do homem se diz através da construção de sua essência, isto é, não havendo Deus ou princípio metafísico a outorgar a natureza humana, ela logo, não existe, o que é, portanto real, a condição do homem construída através da liberdade estrutural feita ação. Não existindo um princípio absoluto e eterno anterior ao homem, este então, deve é responsável até as ultimas conseqüências de por suas escolhas logo, “o homem é livre” (SARTRE, 2010.p.32) ele é a sua liberdade. Não crê, pois, o existencialista na força das volições, ou seja, que estas são maiores e podem sobrepor ao homem, uma vez que toda experiência de mundo e os atos, são os próprios homens que atribuem sentido a estas experiências e decifram os sinais inerentes a facticidade, logo o homem também é responsável por suas volições. Deste modo, a autencidade nesta esteira é equivalente ao modo de ser Para-si do homem, isto é, da consciência do homem que se fundamenta a partir do Em-si e contra o Em-si, findando numa nadificação do ser como relação entre o Para-si e o Em-si. Assim, a realidade humana se volta ao mundo, transcendendo-o e nadificando-o, logo, atribuindo a esta exterioridade sentido a partir da falta. Este constante movimento de criação é o que Sartre designa por condenação do homem a inventar a cada instante o homem.

Em face da autencidade e a sua constituição delimitada, é preciso avaliar o sofrimento inerente a posse do homem de própria existência, e o caminho trilhado a partir da liberdade como não apartado do sofrimento existencial. Inferir a prisão do homem em sua liberdade é designar a liberdade como a nadificação permanente da consciência face ao mundo, não havendo nada fora do homem, nenhuma tábua de valores a conduzir-lhe. A consciência, isto é, o Para-si, como consciência humana que se transpassa a si rumo ao mundo modificando através das ações e atribuindo-lhe significação. Ora, não há como dissociamos o sofrimento desta construção autentica, ante os pressupostos que explicitam este estado existencial doloroso tais como: desamparo, condenação, nadificação. Não se quer aqui, demonstrar que por ser doloroso não seja necessária ou fundamental tal responsabilidade do homem diante de si e dos outros, quer-se, pois, evidenciar, ou melhor, fomentar a perspectiva da existência como investida firmada numa constituição livre e sofredora. Não pode ser considerada esta escolha a si, um caminho fácil à realidade humana, uma vez que esta é posta através de sua consciência em permanente escolha por fazer-se, rejeitando assim, o modo de ser que simplesmente é dado, acabado e finito. A liberdade para Sartre não “é um Ser: é o Ser do homem, seu nada de Ser” (SARTRE, 2009.p.545), é esta liberdade um cárcere onde o homem é posto constantemente a prova, é incitado a construir a inventar sua essência escolhendo-se, deste modo, há uma tensão imanente em relação à realidade humana, um sofrimento perceptível para não se fixar, tornar-se pleno tal como os seres Em-si, que são cheios de si.

Sabe-se logo que, a escolha do homem a si e de seu campo de possibilidades, sobretudo, a responsabilidade pela invenção de sua essência é considerada a autencidade, ou dito de outro modo a boa-fé e ficou-se clara a dor existencial versando tal modo de ser do homem. Todavia é preciso examinar o oposto a fim de verificarmos o sofrimento em face do modo de ser inautêntico, ou seja, na postura do homem em abster-se de seu projeto fundamental, não escolhendo, nadificando sua consciência ao invés da exterioridade, configurando assim, a má-fé.

Por má-fé e inautencidade entende-se a conduta humana negativa em relação a si, isto é, a recusa da transcendência, da constituição por vias da negação das possibilidades do homem em relação a si. A consciência do homem como nadificadora, volta a si, negando o projeto, ou melhor, todas as escolhas e possibilidades potenciais de um projeto fundamental. Diz Sartre que “costuma-se igualá-la a mentira” (SARTRE, 2009. 93) desde que a diferenciação entre a simples mentira e mentir a si mesmo, fique evidente. Pois bem, o mentiroso segundo o autor em questão, não fica a par da verdade, tão somente, a ignora atestando assim uma consciência sínica em relação à verdade negando-a. A disposição do mentiroso logo é positiva, pois ele tenta dissimular a verdade, enganar, ele visa ludibriar o seu interlocutor. Contudo, na má-fé não se maquia a verdade do interlocutor, mas de si mesmo, pois a má-fé “implica por essência, (…) a unidade de uma consciência” (SARTRE, 2009.p. 94). Para esta proposta o dado relevante no tocante a má-fé, é a abnegação da consciência em relação a si mesma, ou seja, para agir de tal modo é preciso ter o mínimo de boa-fé, tal como o mentiroso sabe acerca da verdade, para negá-la. O homem assume este modo de ser, mentindo a si mesmo, enquanto recusa sua responsabilidade ante a facticidade, ou seja, a sua realidade humana. O homem então se vê lançado no mundo de forma inteiramente gratuita, e está encarcerado em sua liberdade, tem assim, duas opções, reconhece sua existência, a assume, ou recusa sua construção e entrega-se a outrem, não abrindo mão de sua liberdade, pois o homem é livre e não pode deixar de sê-lo, rompe com suas possibilidades, com a transcendência de sua condição para esconder-se de si mesmo, com medo, receio de tem de assumir sua existência, percebe que entregar-se a outrem, ao seu olhar objetivador, lhe dará menos trabalho. Todavia, essa recusa potencializa o que se chama aqui de condição sofredora, e infere-se que, é melhor sofrer no processo contínuo de constituição de si, do que nas mãos opressoras de outrem se tornando um objeto, coisificado.

Como então poder-se-á tornar efetiva tal autencidade no escopo da boa-fé? É necessário, pois, que o homem assuma suas escolhas, a liberdade condicional de sua existência e, sobretudo, a dor inerente a tal condição. Como fora dito, a autencidade do homem e sua inautencidade firmam-se sob os pilares do sofrimento, pois este é fator constitutivo da condição humana tal como a liberdade que é o próprio homem e é imprescindível se deixar claro que estes dois lados da existência, autêntica e inautêntica, estão no âmbito da existência, da humanidade. A respeito da questão suspensa a pouco, inferimos que, o homem agirá, e assumirá até as ultimas conseqüências de suas escolhas, uma vez que, reconhecer-se livre e sofredor, não tratando de sua dor existencial como fator quietista, mas por vias de sua condenação constitutiva.

EXISTÊNCIA SOFRIMENTO E HUMANISMO

Aliada a inautencidade que como inferimos é a forma mais elevada de burlar o sofrimento existencial. Percebemos a projeção, ou o ato de atribuir a outrem a responsabilidade pelo mal que nos apetece, por que é mais fácil que o outro ou tudo menos nós mesmos sejamos responsáveis pelo que causamos. Dito de outra forma; transpomos a nossa existência que é em si experiência do sofrer em direção ao outro como eixo cuja nossa existência girará em torno, como a terra e o sol, que dependem essencialmente um do outro para que haja este movimento, mas no caso humano, não há uma natureza boa em tal situação. Quando escolhemos como afirmou Sartre, e somos autônomos para deliberar acerca de nossos atos, trazemos a nós o encargo, o peso de toda humanidade. É sabido que deste modo, é criada uma projeção do que é o homem, neste caso do que são os homens; responsáveis, angústia e liberdade, mas também é sofrimento. Quando projetamos nossa existência no outro, e este, doar-se, é fundado na fuga do sofrimento existencial, ou seja, esquecermos de nos constituir pelo dolo e nos dissolvermos num existir que estranho ao nosso, estaremos relacionando dois pólos negativos que, certamente não acarretará em nada de positivo para ambos.

Frustramo-nos ao lançar nossa existência na vivencia de outrem, o que ocorre é uma banalização do desenho existencial, da construção que nos pertence para criar um eu ideal, que não nos pertence, é ideal por ser alcançado pelo âmbito formal da vontade, mas não se trata de um eu, pois não se encontra nos limites da subjetividade. Essa vontade já rompeu com o que mais particular há na pessoa humana, sua capacidade de traçar seu próprio caminho. Esse traçado fundado por ações é o que chamamos aqui de desenho existencial, esta concepção não está para a ordem das categorias, pois, diz respeito à totalidade do que é o homem sendo este mesmo sua própria liberdade como afirmou Sartre outrora.

Construir uma ligação com outrem de modo que tal laço nos revele a todo instante a incompletude de nossas relações, também é experimentar a relação do sofrimento através do conhecimento do outro como ele mesmo, isto é, nas relações de alteridade. Por vezes nos detemos em nossas relações a tentar realizar a felicidade alheia, ou então, fazer o outro sentir nossa felicidade. Não seria isso uma violência? Quem nos diz amar incorre neste erro? Bom, é uma violência de fato, não podemos obrigar a ninguém experimentar o que chamamos a pouco de tampões da real condição, pois cada um de nós é absolutamente liberdade de construírem-se, como nos mostrou Sartre. A felicidade não é contagiante é uma opção, não acordamos felizes, mesmo porque, com já atestamos nossa realidade factual impede tal cotidianidade. O que ocorre é a escolha por transpor num dado momento, mesmo que de forma efêmera, esta condição.

O que é o amor? Um sentimento arrebatador que nos faz esquecer tudo, até mesmo do que somos? Ou uma construção ao longo do tempo em que se partilha um período de tempo com outrem, seja em quaisquer tipos de relações intersubjetivas? Valemo-nos da segunda questão para a nossa proposta. Se tal sentimento fosse essa idealização difundida aos quatro cantos pelos românticos, teríamos que nos render a idéia inata, ou a capacidade inata de amar, o que certamente feriria nossas bases existencialistas. Logo, nos resta a construção por meio das disposições em nós presentes na junção intenção, consciência e motivações. Nosso incomodo está nas relações em que a intenção e a consciência fecham o outro numa pertença tratando-o como um adorno, uma propriedade inteiramente ao nosso dispor. Quais as relações não estão sob estes parâmetros? Um casal de namorados, por exemplo, ambas são existências que sofrem e buscam amenizar esta dor, mas a sociedade a cultura lhes impôs a necessidade do bem estar devendo ser ocasionado uma vez que, se tem alguém. Aqui atestamos o maior equivoco nas relações, não somos solução para ninguém, ao contrário, não há estatuto ou alivio do desespero nem mesmo em nós.

Sofremos, e existimos, não há dicotomia versando estes pressupostos e se consideramos tais premissas, percebemos a nossa real condição contingente, sem nenhum sustentáculo num céu inteligível, ou no intelecto divino. Nada é, ao contrário, tudo vem a ser a partir do nada, da ausência que e por si experiência da dor. Todas as experiências humanas trazem traços da dor que as sustentam, o amor entre casais, as amizades, relações familiares, vida publica em todas as suas instancias. O sofrimento não é algo que encontramos ao longo de nossa vida, ao contrário é base estrutural do homem, isto é, experiência condicional do universo humano.

Mas como falamos do sofrimento como estrutura do universo humano? E a razão? Não é esta o fator primordial da existência, não é a consciência que nos permite nadificar e constituir num movimento dialético e orgânico? Certamente, entretanto, não só. De fato nossa consciência intencional, lança-nos ao mundo e nos impele a nadificar, atestamos aqui o modo de ser para- si de Sartre, todavia, estamos longe de uma experiência racionalista no tocante ao homem, mas também não damos demasiado valor ao sentimento esquecendo a racionalidade. Referimo-nos, portanto, a existência do homem como consciência do sentimento, ou seja, não somos somente razão e calculamos tudo presente no universo humano através do crivo racional e na mesma medida, não somos volições intermitentes. Deste modo, podemos considerar o homem como, consciência que sofre.

Ser consciente de sofrer permite ao homem voltar ao mundo com um olhar mais humano, costuma-se dizer entre nós que, o sofrimento humaniza. De fato há uma verdade nesta expressão, mas não podemos considerar o sofrimento como algo que nos apetece extrinsecamente num determinado momento de nossa vida. Não podemos atribuir a humanização pelo sofrimento, como um fator secundário em nossa existência, pois, não vivemos condicionados pela felicidade perene, tampouco pela satisfação absoluta de ser e encontramos, por acaso, algo que chamamos de dor num certo momento de nossa trajetória. Trata-se do contrário, somos e devemos assumir nossa condição existencial de sofredores, essa é de fato, nossa condição. Quando tratamos de uma humanização, ou melhor, do humanismo, por esse viés, atestamos o sofrimento como possibilidade do homem perceber a outrem e escolhe-lo, não como meio, mas como fim, isto é, não podemos nos valer do outro como meio, pois, se nos valêssemos de tal conduta, nos referiríamos a ele como totalidade em si mesmo, um parâmetro a ser seguido, inerte, e perfeito. Contudo, o outro não é perfeito, é contingente e um constituir-se abeto tal como nós e mais, é como nós mesmos, uma existência sofredora que se constitui através desta condição.

Humanismo em termos do existencialismo se trata da construção de um horizonte moral, isto é, do reconhecimento do outro e da instituição de valores estritamente humanos, firmados na existência, na facticidade e não em tábuas de valores a apriorísticas. Deste modo, levando em consideração à condenação do homem a liberdade, a precedência da existência face da essência, e, sobretudo, do sofrimento como realidade do ser autentico e inautêntico, ou seja, o sofrimento está no escopo da ontologia. Atesta-se aqui, o salto de uma ontologia a moral, pois, é sabido que aquela não diz sobre valores, somente explica, analisa o ser, atribuindo à segunda, a incumbência de tratar das relações humanas. Como pensar um humanismo e uma moralidade, tendo como ponto de partida o sofrimento e a liberdade como fundamentos ontológicos dos seres? Pois bem, se pensarmos, isto é, reconhecermos o outro como livre, e constitutivamente sofredor, nos colocaremos numa mesma esteira, não há melhores ou piores, maiores ou menores, todos sem exceção, sofrem, têm marcas e, sobretudo, são livres para transpor essa objetividade violenta. A própria constituição de novos valores, legitimando a cisão em relação aos universais abstratos, configura um sofrimento, “angustia” existencial, aquele impulso do ser em se mover, pôr-se a criar, inventar, pois não a nada antes, fora ou dentro dele mesmo, pronto. Em suma, sofrer é ser humano, criar, constituir, ser livre e autentico está para o sofrimento tal como a liberdade está para a condenação.

REFERÊNCIAS

MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2005.

MARX, Karl. Manuscritos Econômico-Filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2006.

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. 12. ed. Petrópolis: Vozes, 2002. 2v. (Pensamento humano).

KONDER, Leandro. Marxismo e Alienação. Contribuição para um estudo do conceito marxista de alienação.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A genealogia da moral: texto integral. 3. ed. São Paulo: Escala, 2009.

RAMACHANDRAN, V. S. ; BLAKESLEE, Sandra. Fantasmas no Cérebro – Uma Investigação dos Mistérios da Mente Humana. Rio de Janeiro: Record, 2002.

SARTRE, Jean Paul. O Existencialismo é um Humanismo. Petrópolis: Vozes, 2010.

SARTRE, Jean Paul. O Ser e o Nada: ensaio de Ontologia Fenomenológica. 18. ed.Petrópolis: Vozes, 2009.

SARTRE, Jean Paul. Esboço de uma Teoria das Emoções. Porto Alegre: L&PM, 2010.

About Thiago Teixeira Santos

Graduado em Filosofia (Bacharel-licenciado) pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, tem interesse nas áreas de filosofia contemporânea, especialmente as francesas e alemãs, ética, politica, sociedade contemporânea e demais temas que contemplem a existencialidade dentro da perspectiva filosófica. Busca experiência e aprendizado no tocante ao Ensino de Filosofia e a Educação.
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