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Sobre a Natureza da História Contemporânea: os desafios do historiador do tempo presente

Sobre a natureza da história contemporânea: os desafios do historiador do tempo presente

O objetivo deste texto é fazer um levantamento dos desafios encontrados pelos historiadores que se dispõem a escrever a História de seu próprio tempo, a história do tempo presente. Procurar-se-á identificar a natureza da história contemporânea fazendo uma análise comparativa dos argumentos apresentados por Eric Hobsbawm e Geoffrey Barraclough.

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Ambos os autores iniciam seus argumentos apontando para o problema do recorte temporal, ou seja, sua preocupação inicial é com o conceito de História contemporânea. Esta será também a primeira preocupação deste texto, apontar como e porque os autores fazem seus distintos recortes temporais. O que determina, ou quais são os marcos históricos que definem o período que será estudado como contemporâneo? Seria a partir da era das revoluções (Francesa e Industrial)? Ou o período das duas grandes guerras? A Grande Depressão em 1929? A Guerra Fria? Os anos 1960? A queda do muro de Berlim em 1989? O ataque às torres gêmeas nos Estados Unidos em 2001? Barraclough (1983) afirma que tradicionalmente a História moderna preocupou-se fundamentalmente em explicar o processo que levou a desintegração do Velho Mundo por meio do estudo da Primeira e Segunda Guerra Mundial e a Guerra fria. Com o entendimento do processo de decadência do Velho Mundo ficava implícita a explicação do surgimento de um Novo Mundo. Barraclough refuta esta idéia, para ele o interesse deve ser voltado diretamente para o Novo Mundo que surge e a partir dele lançar o olhar sobre o passado para compreender suas origens, pois “algumas das características mais salientes do Mundo Contemporâneo tem sua origem em movimentos e desenvolvimentos ocorridos longe da Europa” (BARRACLOUGH, 1983, p.12). Sendo assim a História contemporânea é diferente da História moderna em qualidade e em conteúdo. Desse modo ele irá definir seu recorte temporal pensando fundamentalmente nesta diferença marcante entre estas duas Histórias, afirmando que, onde muitos historiadores atuais visualizam permanências ele enxerga grandes rupturas que separam os dois períodos. Deve-se tratar da História contemporânea não como uma continuação do período anterior, o que interessa para o autor são as descontinuidades que irão caracterizar o período como uma nova fase da história da humanidade. Assim, História contemporânea seria muito mais do que simplesmente “aquela parte da História moderna que está mais próxima de nós no tempo” (BARRACLOUGH, 1983, p.13), pois ela é completamente distinta da história moderna. Existe, portanto, um período de tempo que marca as transformações que levaram à formação do novo mundo. Estas grandes rupturas, que são para o autor um divisor de águas, são caracterizadas como uma fase de transição que está entre os anos 1890 e 1961, período em que ocorreram as transformações que levaram o mundo contemporâneo a ser fundamentalmente diferente daquele anterior a 1890.

De um alado, situa-se a idade contemporânea, que ainda esta em seus primórdios; do outro, alarga-se o vasto panorama da História “moderna”, com seus píncaros familiares: Renascimento, e Revolução Francesa. É desse grande divisor entre duas épocas da História da humanidade que este livro se ocupará, principalmente; pois foi então que tomaram forma aquelas forças que moldaram o mundo contemporâneo. (BARRACLOUGH, 1983, p.13).

Em ocasião de publicar seu livro sobre a história do século XX – Era dos extremos, o breve século XX – Hobsbawm (1998) escreveu um texto sobre a sua experiência pesquisando história contemporânea e apontando os desafios que havia encontrado pelo caminho. O autor inicia seus argumentos citando Benedetto Croce: “Já se disse que toda história é história contemporânea disfarçada” (HOBSBAWM, 1998, p.243). Ou seja, toda produção historiográfica é um olhar de seu próprio presente sobre o passado. Esta relação do historiador contemporâneo com o contexto do tempo o qual está pesquisando leva Hobsbawm a apontar três problemas e possibilidades de se fazer este tipo de História: o problema das gerações, ou da data de nascimento do historiador; o de como a própria perspectiva do autor sobre o passado pode mudar com o tempo e das influências que o próprio meio pode exercer sobre as suposições do historiador sobre o passado. A questão da geração será esclarecedora para entendermos como Hobsbawm faz seu recorte temporal e porque este é diferente do de Barraclough. O tempo de vida de Hobsbawm (nascido em 1917) quase coincide com o século XX e, conforme o mesmo afirma: para historiadores das gerações mais recentes a Segunda Guerra Mundial pode parecer um evento tão “pré-histórico” quanto a Antiguidade Clássica, contudo para o autor, que vivenciou o período, a segunda grande guerra é história contemporânea. Mas não será somente por meio da questão das gerações que o autor irá se posicionar quanto ao recorte temporal. Ele retoma a discussão do conceito: o que é contemporâneo para uns pode não ser para outros e assim torna-se necessário buscar, no entendimento dos processos históricos, marcos que sejam mais ou menos gerais ou mais ou menos compartilhados pela maioria das nações, para se conseguir definir e diferenciar o período de tempo que será abarcado pela história contemporânea.

Assim, diferentemente de Barraclough que enxerga um período de transição que precede a contemporaneidade, Hobsbawm a visualiza na própria continuidade dos processos de transformação iniciados no século XIX. Ou seja, para Hobsbawm no próprio século XIX os imperialismos e sua decadência já anunciavam o inicio da contemporaneidade e o fim da História moderna. O colapso desta Velha Ordem que tem como marco simbólico a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914 é também o marco da História contemporânea e o começo do breve século XX. O titulo de breve século XX é justificado pelo autor por duas razões: pela sensação de vertigem diante da aceleração do tempo histórico ocorrido neste século, “Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem.” (HOBSBAWM, 1997, p.13) e, fundamentalmente, pela possibilidade de se enxergar agora, sobre perspectiva histórica, os anos que vão de 1914 a 1991 como um período coerente ou passível de uma análise conjuntural, “acho que já é possível ver o Breve Século XX – de 1914 até o fim da era soviética – dentro de uma perspectiva histórica.” (HOBSBAWM, 1997, p.7). Cabe aqui mencionar o terceiro problema apontado por Hobsbawm, em que a própria visão do autor sobre a história pode se alterar com o tempo. Ele menciona o fato de que qualquer trabalho de história da Guerra Fria escrito após o fim da URSS, em fins da década de 1980 e início dos anos 1990, dificilmente traria as mesmas interpretações, mesmo que escrita pelo mesmo autor, de um trabalho realizado antes. A velocidade com que as mudanças ocorrem no breve século XX faz com que tão logo a história contemporânea seja escrita, sua interpretação do tempo presente se torne superada, desconexa ou ultrapassada. Por isso a preocupação do autor em fazer um recorte temporal que lhe permita ter uma visão de conjunto de processos históricos, os quais, de certo modo, podem ser tomados como “acabados” – as Guerras Mundiais e a Guerra Fria 1914-1991. Neste período, Hobsbawm já enxerga características que permitem defini-lo como contemporâneo, pois nele o mundo havia deixado de ser eurocêntrico, passou a ter maior integração transnacional em detrimento das velhas economias nacionais mais ou menos isoladas e mudou quase que completamente os padrões do relacionamento social humano. Contudo, ambos autores salientam que não deve se tomar esses recortes como algo muito preciso, uma vez que os eventos ocorridos especificamente nestas datas não são fatos isolados do contexto histórico que os precede. Sendo assim, estes marcos servem mais como uma forma de orientação espaço-temporal do que uma indicação exata de um momento de transição radical entre duas eras – como outrora os positivistas fizeram com seus marcos históricos.

Mas a questão da delimitação do recorte temporal não é o único problema com o qual o historiador da História contemporânea deve se preocupar. Em relação a isto, os dois autores citados concordam, pois ambos fazem um levantamento dos limites e possibilidades de se escrever este tipo de história. Hobsbawm se utiliza de sua própria experiência de vida para exemplificar um dos problemas/possibilidades que aponta: o autor afirma que por ter vivido grande parte do século XX, sua experiência de vida individual coincide em grande parte com a história coletiva. Sua memória individual está conectada às representações coletivas dos processos históricos que vivenciou e a relação entre estas oferecem certas vantagens e desvantagens para analisar a história do tempo presente.

Primeiramente, Hobsbawm aponta que nem toda experiência individual se articula com a coletiva, por isso, são atribuídos marcos aos processos históricos para que haja consenso em relação a experiência coletiva. Eventos que não são compartilhados ou vivenciados por todas as nações, como a Grande Depressão de 1929 nos Estados Unidos, são tomados como marcos por seu impacto e influência na história mundial, ou seja, um evento não ligado a história nacional de um país é aceito como marco devido a sua repercussão no mundo. Segundo, mesmo havendo consenso com relação aos marcos da experiência histórica coletiva, os marcos da experiência individual vão permanecer e as impressões que os eventos da história deixaram marcadas na memória do historiador que vivenciou o momento continuarão a existir. Hobsbawm cita o exemplo, do qual se lembra vividamente, do dia em que Hitler se tornou o chanceler da Alemanha. Ou seja, sua experiência individual demarcou um evento histórico em sua memória e faz com que sua interpretação deste acontecimento seja singular: “Todo Historiador tem seu próprio tempo de vida, um poleiro particular do qual sondar o mundo. [...] Se isso é assim para historiadores de mesma idade e antecedentes, a diferença entre gerações é suficiente para dividir profundamente os seres humanos.” (HOBSBAWM, 1998, p. 244-245) Terceiro, o fato de ter vivenciado e acumulado impressões e opiniões sobre eventos históricos presentes traz ao historiador a possibilidade de se ter uma versão própria dos fatos, assim como o analista social que tenta enxergar o acontecimento “de fora” e como um jornalista de campo que foi testemunha presencial dos acontecimentos. Hobsbawm enxerga isto com otimismo, pois defende que escrever sobre um momento que vivenciou traz a possibilidade de uma análise que de outra forma iria requerer um esforço muito maior:

No entanto, como nossa geração sabe sem precisar consultar arquivos, os apaziguadores estavam enganados, e dessa vez Churchill estava certo ao reconhecer que não era possível um acordo com Hitler. [...] Não pretendo sugerir que apenas os que conseguem se lembrar de 1940 são capazes de chegar a essas conclusão. Porém, para um jovem historiador chegar a ela é necessário um esforço da imaginação, uma disposição em suspender crenças baseadas em sua experiência própria de vida, e um considerável trabalho de pesquisa. Para nós isso não é preciso. (HOBSBAWM, 1998, p. 245-246).

Entretanto, como aponta Barraclough, o fato do historiador acumular opiniões sobre a história coletiva por meio de sua experiência individual o leva a enfrentar o desafio de fazer suas análises históricas do tempo presente sem se deixar levar pelas ideologias correntes. Para ele torna-se necessário buscar fazer análises mais profundas para que não ocorra o problema, já mencionado, de tão logo a história ser escrita tornar-se obsoleta, uma vez que um mundo em constante transformação muda também seus paradigmas ideológicos.

Se quisermos que ela tenha algum valor perene e duradouro, a análise de acontecimentos contemporâneos requer profundidade, nunca menor – talvez, de fato, uma boa dose mais – do que qualquer outro gênero de História; nossa única esperança de discernir as forças efetivamente em ação no mundo que nos cerca é alinhá-las, de maneira, firme de encontro ao passado, para que o contraste lhes dê o devido realce. (BARRACLOUGH, 1983, p.19).

A devida profundidade das pesquisas da História contemporânea é possibilitada pelos avanços metodológicos e tecnológicos da disciplina e cabe ao historiador procurar estar em sintonia com a incomensurável variedade de possibilidades diante das fontes e meios de analisá-las. Os autores argumentam que, se, por exemplo, os trabalhos sobre Antiguidade Clássica são de certo modo limitados pela quantidade e qualidade das fontes disponíveis, isso não acontece com a História contemporânea. A imensa quantidade de pesquisas históricas produzidas ao redor do mundo, a quantidade infinita de documentos, registros midiáticos e digitais, torna impossível que um historiador consiga consultar todo o material disponível sobre o tema de sua pesquisa e “o problema fundamental para o historiador contemporâneo em nosso tempo infinitamente burocratizado, documentado e inquiridor é mais um excesso incontrolável de fontes primárias do que uma escassez das mesmas.” (HOBSBAWM, 1998, p.254).

Portanto vemos que, não diferente de outros gêneros históricos, a História contemporânea tem seus próprios debates historiográficos que apontam suas contradições, seus avanços e suas limitações para entender a realidade e para definir e compreender qual o seu objeto de estudo. Como foi demonstrado, Hobsbawm visualiza na continuidade dos processos de transformação do século XIX o inicio do mundo contemporâneo, marcado pela eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914. Seus estudos se prolongam até 1991, com o fim da URSS e da Guerra Fria, recorte que, como defendido pelo autor, é possível de enxergar através da retrovisão, por meio de uma perspectiva histórica por conformar uma era, um período coerente da história da humanidade passível de análise conjuntural. Barraclough, emtretanto, prefere entender a contemporaneidade através de uma ruptura quase total com a História moderna.Tal ruptura é uma fase de transição que vai de 1890 até 1960, espaço de tempo em que o mundo se transformou em algo novo. Ambos os autores apontam os desafios de se fazer a história do tempo presente devido ao fato de o historiador estar envolvido pelo contexto dos acontecimentos e pelo acúmulo de opiniões, preconceitos, experiências, visões compartilhadas pelo senso comum e influencias ideológicas. Hobsbawm defende que a experiência individual pode ser uma vantagem para os historiadores escreverem a história coletiva e neste sentido Barraclough o complementa afirmando da necessidade de se produzir pesquisas com maior aprofundamento. Embora os dois partam de um recorte temporal diferente, os dois parecem concordar ou pelo menos se complementam em diversos aspectos. Sendo assim, o próprio historiador pode enxergar a si mesmo como fonte histórica comparando suas memórias com suas demais fontes, o que Hobsbawm faz com excelência em sua obra Era dos Extremos: O Breve Século XX, em que o autor apresenta uma história interpretativa em detrimento de uma narrativa minuciosa dos acontecimentos, baseando-se em outras pesquisas sobre tema, em um forte aparato documental, em diversas fontes variadas que, como discutido anteriormente, estão disponíveis no mundo atual e, sobretudo sua própria experiência de vida. Entretanto, como se sabe, as impressões da experiência pessoal dos historiadores deixam marcas não somente no caso peculiar da História do tempo presente, mas em qualquer outro gênero da história, para relembrar a citação que Hobsbawm faz de Benedetto Croce.

Referências Bibliográficas

BARRACLOUGH, Geoffrey (1983), Introdução à História Contemporânea, Rio de Janeiro, Zahar, pp.11-42 (capitulo1: Natureza da História Contemporânea).

HOBSBAWM, Eric J. (1997), A Era dos Extremos: o breve século XX, 2ª Ed., trad.: Marcos Santarrita, SP: Cia das Letras.

__________________ (1998), Sobre História, trad.: Cid Knipel Moreira, São Paulo, Cia das Letras, pp.243-255 (capitulo 18: o presente como história).

About Matheus Blach

Formei em História pelo Centro Universitário UNA, fui aluno de destaque da graduação ganhando o prêmio Portal de Ouro UNA. Obtive bolsa iniciação científica pelo UNA e FAPEMIG; atuei como Pesquisador e Monitor Educacional no Museu dos Brinquedos em Belo Horizonte; trabalhei como professor de história na rede estadual de ensino de Minas Gerais; sou autor do livro “Patrimônio Natural, Sentido Histórico e Valor Cultural”; elaborei pesquisa histórica para a produção do documentário Barba Cabelo Bigode; atuei no IPHAN como pesquisador bolsista por meio do Programa de Especialização em Patrimônio (PEP/MP). Atualmente, realizo pesquisas no campo do Patrimônio Cultural (instruções de tombamento, licenciamento cultural, dentre outras).
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