Home / História / Orientalismo: A relação histórica entre Oriente e Ocidente

Orientalismo: A relação histórica entre Oriente e Ocidente

“A sociedade européia praticamente inventou o Oriente.” (SAID, 2007) É assim que Edward W. Said inicia a introdução de seu livro “Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente”. Através deste texto analisaremos a relação histórica existente entre oriente e ocidente e o conceito de orientalismo explicado pelo autor.

Apesar de parecer algo um tanto polêmica, ou eurocêntrica, a afirmação com a qual iniciamos o texto somente toma sentido se pensada dentro do contexto apontado pelo autor, o contexto do que ele conceitua como orientalismo. Porém, antes de continuar é importante ressaltar que para Said o Oriente existe autonomamente sim.

Dito isso, deve-se passar a indicar algumas observações razoáveis. Em primeiro lugar, seria errado concluir que o Oriente foi essencialmente uma idéia ou uma criação sem realidade correspondente… Havia – e há – culturas e nações cuja localização a leste, e suas vidas, histórias e costumes têm uma realidade bruta obviamente maior do que qualquer coisa que se poderia dizer a respeito no Ocidente. (SAID, 2007 p. 31-32).

O Oriente está para além da simples distinção entre oeste e leste sendo este, muito mais complexo. Ou seja, o Oriente é uma entidade autônoma dotada de múltiplas identidades culturais, sociais, políticas, econômicas, étnicas, religiosas e com suas respectivas localizações geográficas [1] . O que seria então esse Orientalismo cuja definição permitiu ao autor afirmar que o Oriente é uma invenção do Ocidente? Segundo Said esse conceito tem diversos significados, mas que de modo geral reflete a forma específica pela qual o Ocidente europeu pensa o que é o Oriente. Assim, o Orientalismo não necessariamente estabelece uma relação de identificação “real” com o Oriente e sim é a idéia que o Ocidente faz dele.

O Oriente não é apenas adjacente à Europa; é também o lugar das maiores, mais ricas e mais antigas colônias européias, a fonte de suas civilizações e línguas, seu rival cultural e uma de suas imagens mais profundas e mais recorrentes do Outro. (SAID, 2007 p. 27-28).

No contexto do século XVIII e XIX, diante do imperialismo europeu encontra-se a necessidade de criar uma identidade nacional, um elemento aglutinador que trouxesse coesão e legitimidade as ações do Estado e inicia-se então, uma exaltação da cultura greco-romana, tomada como modelo de sociedade ponto de partida, berço da civilização. No artigo O que é Civilização trabalho a questão do conceito de Civilização e conseqüentemente do que é considerado o seu oposto: O termo passa a ser utilizado por volta do século XIX. Era usado freqüentemente para legitimar o poderio da sociedade Européia. Novamente a conceituação se baseia na comparação e no preconceito entre diferentes sociedades, aqueles que não eram Europeus, não eram civilizados.

Segundo Said “o oriente ajudou a definir a Europa (ou o Ocidente) com sua imagem, idéia, personalidade, experiência contrastantes” (SAID, 2007 pg. 28). O Oriente na visão do Orientalismo então é o lugar do exótico, do não civilizado, da barbárie, do oposto, do diferente, do inimigo, do Outro. Além de todas essas características que constituem o estereotipo do Oriente criado pelo Ocidente existiu um marco na história das ciências que contribuiu para que o Oriente também fosse considerado um lugar atrasado, menos evoluído, pré-civilizado.

A definição de civilização baseada na comparação teve origem também no iluminismo, através do empirismo e posteriormente da importação da teoria evolucionista de Charles Darwin pelas ciências humanas que adotaram por muitos anos essa idéia da escala evolutiva da sociedade. Assim como o ser humano evoluiu, em termos biológicos, de um ancestral primata até o Homo Sapiens Sapiens, a sociedade evolui também de forma que uma sociedade anterior a atual é inferior, menos evoluída.

Todo um discurso[2]  legitimador foi criado então, através do orientalismo para justificar a ação imperialista colonizadora européia e para se auto-afirmar como superior através da imagem do oposto, do Outro como inferior. O Ocidente de forma heróica levava aos orientais atrasados à civilização, o progresso, a evolução. Assim ocorreu durante o Imperialismo europeu e assim também ocorre hoje em dia com o Imperialismo norte-americano tentando implantar seu modelo de “democracia” no Oriente para justificar suas ações políticas. Essa justificativa baseia-se sempre em um modelo de sociedade que tenta ser imposto aos outros povos como superior, ou melhor, do que o deles. Aconteceu nas Cruzadas, na Expansão Marítima, no Holocausto e está acontecendo nas invasões dos Estados Unidos aos países do Oriente Médio.

Contudo, após fazer essa contextualização e pensar o Oriente como invenção do Ocidente dentro desta forma de conceber o Oriente, chamada Orientalismo, Edward Said ainda aborda o conceito sobre três diferentes aspectos. O Orientalismo acadêmico, imaginativo e histórico.

O primeiro reflete no século XIX a arrogância colonialista européia, era uma disciplina acadêmica que fazia o estudo do oriente sob um olhar eurocêntrico visando legitimar superioridade da Europa. Segundo Said ainda que de uma forma mais crítica esse orientalismo acadêmico ainda existe hoje, pois para o autor “quem ensina, escreve ou pesquisa sobre oriente […] nos seus aspectos específicos ou gerais é um orientalista, e o que ele ou ela faz é Orientalismo” (SAID, 2007 pg. 28). Helder Macedo, citando Manuela Delgado Leão Ramos, comenta em nota de rodapé que a obra de Said aborda o Orientalismo com certo negativismo deixando de considerar os avanços metodológicos das disciplinas que estudam o Oriente.

Manuela Ramos considera a posição de Said como de acepção negativa em relação ao orientalismo, que ela considera não apenas como uma relação de dominação intelectual e política, mas, também, numa intenção de conhecimento e entendimento mútuos. Enfatiza, portanto um orientalismo positivo… (MACEDO, 2006 p. 7).

Já o Orientalismo Imaginativo é uma forma de pensar o Oriente de modo mais geral, – diferente do conceito anterior em que o modo de analisar é pautado em um determinado método e segue certo rigor acadêmico – é a relação da produção acadêmica e o que é transmitido ao senso comum, ao conhecimento geral, ao imaginário de cada época.

O Intercâmbio entre o significado acadêmico e o sentido mais ou menos imaginativo de Orientalismo é constante, e desde o final do século XVIII há um movimento considerável, totalmente disciplinado – talvez até regulado – entre os dois. (SAID, 2007 p. 29).

Esse orientalismo está ligado a produção cultural de seu tempo como a literatura, a arte, filmes e novelas nos dias atuais. Podemos tomar como exemplo, diversos registros em que o Oriente aparece moldado por esse Orientalismo: os de Heródoto, Marco Pólo e Colombo; e mais recentemente telenovelas como O caminho das índias e a famosa produção cinematográfica 300 de Esparta. Vamos lançar nosso olhar sobre este último em que o estereótipo do Oriente exótico aparece de forma no mínimo “gritante”: Os Espartanos (Ocidentais) são nobres guerreiros treinados e caracterizados pela honra, fidelidade e coragem, heróis; já o “inimigo”, os Persas (Orientais) são criaturas monstruosas, metamórficas, lendárias, envolvidas em certo misticismo e que usam de qualquer recurso ao seu alcance para vencer a batalha. Segundo Said este “estilo de pensamento é baseado numa distinção ontológica e epistemológica feita sobre o Oriente e (na maior parte do tempo) o Ocidente” (SAID, 2007 p. 29), a diferença entre o nós e o outro, o oeste e o leste, a qual os escritores, romancistas, novelistas, roteiristas e diversos outros corroboram para criar.

Concluímos então este texto com o terceiro, o Orientalismo Histórico. Este busca entender os termos e conceitos históricos em cada tempo, compreender seu contexto específico, em síntese, é o que Edward Said faz em sua obra e o que tentamos explicar aqui, é historicizar o conceito de Orientalismo e buscar analisar a sua relação com o Oriente em cada época. Nas palavras do autor:

Orientalismo pode ser discutido e analisado como a instituição autorizada a lidar com o Oriente – fazendo e corroborando afirmações a seu respeito, descrevendo-o, ensinando-o, colonizando-o, governando-o: em suma, o Orientalismo como um estilo ocidental para dominar, reestruturar e ter autoridade sobre o Oriente. (SAID, 2007 p. 29).

Portanto percebemos que por orientalismo podemos entender vários conceitos, mas todos eles se comunicam e são interdependentes. Percebemos que entre Orientalismo e Oriente há uma grande diferença, porém, sem deixar de considerar que o segundo existe como uma entidade autônoma com múltiplas identidades e que o primeiro não se trata de pura de ficção, ou seja, apesar da distinção entre um e outro existe uma relação entre eles. O conceito abarca as relações de poder e dominação estabelecidas entre oriente e ocidente, entretanto ressaltamos neste ponto, a contribuição de Helder Macedo ao questionar o negativismo de Said demonstrando que através de novos métodos, novos olhares são lançados sobre o Oriente, atualizando o conhecimento sobre ele,com muito mais propriedade em uma tentativa de se aproximar mais do “real”. É uma “intenção de conhecimento e entendimento mútuos.” (MACEDO, 2006 p. 7).


[1] Helder Macedo em seu texto “Oriente, Ocidente e Ocidentalização: Discutindo Conceitos” aborda a questão geográfica analisando os Mapas culturais do Ocidente cartografados por Jacques Le Goff, demonstrando que além da demarcação territorial entre o Ocidente e o Oriente existe uma distinção cultural geograficamente localizada, mais complexa do que uma simples linha que divide o globo em duas partes.

[2] O conceito de discurso utilizado aqui é o mesmo aplicado por Edward Said tomado de Michel Foucault em Arqueologia do Saber e Vigiar e Punir. Segundo Said “sem examinar o Orientalismo como um discurso, não se pode compreender a disciplina extremamente sistemática por meio da qual a cultura européia foi capaz de manejar – e até produzir – o Oriente política, sociológica, militar, ideológica, científica e imaginativamente durante o período do pós-Iluminismo” (SAID, 2007 p. 29).

Referências Bibliográficas

MACEDO, Helder Alexandre Medeiros de. Oriente, Ocidente e Ocidentalizção: Discutindo Conceitos – Revista da Facudade do Seridó, 2006.
PINSKY, Jaime, “As Primeiras Civilizações, 22ª ed, Contexto, 2005, pp.60-62.
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

About Matheus Blach

Formei em História pelo Centro Universitário UNA, fui aluno de destaque da graduação ganhando o prêmio Portal de Ouro UNA. Obtive bolsa iniciação científica pelo UNA e FAPEMIG; atuei como Pesquisador e Monitor Educacional no Museu dos Brinquedos em Belo Horizonte; trabalhei como professor de história na rede estadual de ensino de Minas Gerais; sou autor do livro “Patrimônio Natural, Sentido Histórico e Valor Cultural”; elaborei pesquisa histórica para a produção do documentário Barba Cabelo Bigode; atuei no IPHAN como pesquisador bolsista por meio do Programa de Especialização em Patrimônio (PEP/MP). Atualmente, realizo pesquisas no campo do Patrimônio Cultural (instruções de tombamento, licenciamento cultural, dentre outras).

2 comments

  1. Estou de acordo com a Gisele, é bom dar uma catudaca… só para garantir se “não dorme no ponto” abraços, escobar

  2. Creio que esse lado ´negativista´ de Said é absolutamente necessário, diante de seu exílio. E cutuca como também fez com Hobsbawn em Reflexões sobre o exílio. É bom cutucar para ver se não está dormindo.
    abraço
    Gisèle Miranda

Scroll To Top