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Texto sem contexto é pretexto: uma análise crítica da documentação.

Texto sem contexto é pretexto: uma análise crítica da documentação.

Quando pensamos em educação à distância, pensamos necessariamente em propostas didáticas que privilegiem a interação entre pares. O principal ambiente para este debate é o fórum de discussão. Neste recurso pedagógico, todos os alunos podem expor seus pontos de vista, dialogando com toda a turma e com os professores responsáveis. Este texto é fruto deste debate. A proposta básica do qual surge esta reflexão é a análise do documentário “Tróia”, produzido pela National Geographic (NatGeo[1]) e os comentários dos alunos ao pensarem criticamente este documentário.

Essa reflexão justifica-se pelo fato de que todo o estudante de história analisará documentação no curso de sua graduação. A partir das críticas e relatos de outros discentes, identificamos certas posturas anacrônicas e etnocêntricas e problematizamos o uso dessa fonte específica. A fim de iniciarmos esta problematização, trataremos um pouco dos textos de Homero que são alvo do documentário. Posteriormente discutiremos o uso da fonte.

Texto sem contexto é pretexto: uma introdução a poesia homérica.

Nosso ponto de partida foi o documentário elaboradora pela NatGeo chamado Tróia (2013). Este documentário, disponível na Internet, pretende analisar a Guerra de Tróia a partir dos relatos de Homero, bem como informar ao espectador como nós temos registros dessa suposta guerra e como os historiadores produzem conhecimento, apoiando-se na Arqueologia e em textos antigos. Além disso, é mister destacar que a NatGeo é uma multinacional que possui diversos empreendimentos de singular importância (como premiações fotográficas e incentivo a preservação do mundo natural). Esse papel social, aliado com seus 125 anos de história dá profunda consistência a opinião de seus documentaristas, roteiristas e produtores (NATGEO, 2013).

Este documentário se apropriará das narrativas homéricas. Isso implica certa contextualização para evitarmos absorver as opiniões dos autores de forma acrítica. Grosso modo, os poemas homéricos nos remetem aos textos desenvolvidos pelo poeta jônico Homero. A historiografia discute se esta personagem, por assim dizer, realmente existiu ou se “Homero” era um termo que designava todos os poetas da época. Apesar de ser um tema muito interessante para o senso comum e de debate acadêmico, entendemos que dois pontos são nevrálgicos: (a) o contexto no qual Homero se insere, fruto de um embate cultural entre Micênicos, Cretenses e as subsequentes invasões dóricas e (b) o mundo narrado por ele que, de acordo com a arqueologia, constitui-se como base para a Grécia Clássica. Homero produziu dois poemas: Ilíada e Odisséia. Além de constituírem um relato dos tempos homéricos e dessa importância ser inegável, é interessante pensarmos que estes relatos sobreviveram até a contemporaneidade com certa preservação (BELTRÃO, DAVIDSON, 2012).

Quando destacamos os embates culturais, as aculturações, ressaltamos que haviam elementos creto-micênicos, indo-europeus e orientais, em especial na Ásia Menor, homogeneizando a base cultural, reforçada pela adoção de um mesmo alfabeto, o fenício (que sofreu modificações), desenvolvendo-se o Linear B: alfabeto do nosso poeta. Porém, Homero narra um mundo que não é seu contemporâneo. A arqueologia afirma que o mundo narrado na Iliada e Odisséia é um mundo “homérico”, isto é, “um mundo que não correspondia ao período micênico (séculos anteriores a ele), nem ao mundo das poleis, que surgirá tempos depois” (BELTRÃO, DAVIDSON, 2012, p. 67).

Quando pensamos em dois livros de um mesmo autor há uma tendência a vermos a obra como uma sequencia lógica de eventos ou mesmo uma expansão da narrativa. Não é exatamente isso que acontece com a Ilíada e a Odisséia. No primeiro texto, percebemos que existem muitos heróis, que os deuses são divididos em facções e interferem nas ações humanas em função de seus interesses pessoais, são diversos os atos divinos e estes agem de forma aleatória e o foco da narrativa é o mundo Oriental. Já na Odisséia temos apenas um herói, um ideal de justiça, atos mágicos (que subentendem a participação ativa do homem na vontade divina), os deuses agem de forma ordenada e o foco da atenção é o Ocidente (BELTRÃO, DAVIDSON, 2012).

Pontos de tensão: uma breve discussão teórica.

Nossa fonte é complexa. Estamos lidando com uma produção para um veiculo de massa: um documentário que passará na televisão ou na Internet. Os produtores não são livres em suas criações e precisam escolher, junto com seu corpo de roteiristas, quais os textos que serão selecionados para corroborar a opinião de seus especialistas, quanto tempo cada acadêmico terá para suas explanações, quais os cortes serão feitos na fala destes e qual o posicionamento político da emissora – que certamente influenciará a montagem. Todos os critérios expostos devem conduzir ao discente certo cuidado, certo senso crítico. Apenas absorver o conteúdo como se ele fosse verdade é falacioso e pressupõem uma falta grave – em especial ao estudante de História.

Logo na primeira parte do vídeo podemos perceber um elemento muito sutil e um mais explícito que corrobora o supracitado: (a) a titulação acadêmica e (b) a Cama de Procrusto. Os especialistas convidados a falar têm o seu nome e seu titulo rapidamente divulgados, pois sabemos que a titulação acadêmica, sendo a Universidade um local de construção e legitimação do discurso, nos leva a uma postura acrítica. Somos motivados por um pensamento do tipo: “ele é doutor e sabe o que está falando” ou “ele estudou isso a vida inteira”. Se essa postura é reproduzida no âmbito acadêmico, o que diríamos quando ela atinge o grande publico? Michel Foucault construirá uma importância crítica filosófica a construção do Discurso enquanto sustentação do Poder-Saber e a docilidade dos corpos: se você detém o conhecimento construído em um locus acadêmico, enquanto estiver imbuída deste lugar social, sua fala corresponde a verdade e gera no outro uma passividade, uma postura acrítica (FOUCAULT, 2005).

Quando começamos a produzir crítica ao que é imposto como verdade, ainda para Foucault (2005), estamos deixando essa docilidade. Na nossa experiência de saula de aula, notamos que houveram diversos juízos de valor a Henrich Schliemann. Alguns discentes em suas falas destacavam que nunca explodiriam sítios arqueológicos: mas estes mesmos discentes esqueceram que Schliemann era um homem do século XIX imbuído dos valores de sua época (HEINRICH SCHLIEMANN, 2013). Quando lançamos a este universo os valores do século XX somos anacrônicos.

O segundo ponto de tensão, que permeia toda a nossa crítica, está na percepção de que construir um documentário implica em optar por quais fontes utilizar. Quais discursos mostrar. Quais alienar. Chamamos este documentário de “Cama de Procrusto” neste ambiente porque ele não tem pretensão de ser acadêmico – sua pretensão é ser uma produção para o publico. Dessa forma, o produtor estica ou encolhe as opiniões para que caibam em sua cama. Essa escolha ofusca uma gama enorme de possibilidades de análise, de hipóteses, de trabalhos que estão sendo produzidos. Isso faz com que pensemos sobre o documentário como uma única possibilidade. Michel Foucault (2004) construirá, em Arqueologia do Saber, um discurso sobre esta postura e para o discente em história, faz-se importantíssimo ficar atento a isso. Essa atitude é muito clara quando o vídeo afirma que não existiam alfabetos quando as narrativas homéricas foram produzidas. Mas… nos perguntamos: e o alfabeto fenício? E o alfabeto mesopotâmico? E o egípcio? Por que o produtor escolheu abstrair esses alfabetos?

Optamos por trazer uma hipótese para esta pergunta, apoiada na discussão do professor Enrique Florescano (1997):

ao criar uma ponte entre o passado distante e o presente incerto, o relato histórico estabelece uma relação de parentesco com os antepassados, próximos e longínquos, e um sentimento de continuidade no interior do grupo, do povo ou da nação.

É claro que a NatGeo está construindo uma ponte entre o passado e o presente durante seu documentário. Ela convida historiadores ingleses e americanos para exporem sobre o tema, cita o interesse cinematográfico na narrativa homérica, enfim, fala diretamente a sociedade burguesa (lembrando que a NatGeo é um canal de televisão a cabo). Não é interessante que em épocas de caça ao terrorismo esta instituição diga que somos fruto inclusive da História Egípcia e Mesopotâmica[2].

Disciplina e interdisciplinaridade.

Como o documentário faz alusão ao texto escrito, foi comum que os discentes levantassem a importância da produção literária para a construção historiográfica. Mas antes de tocarmos neste ponto, gostaríamos de destacar o que é interdisciplinaridade, pois a temática é de singular importância para nossas considerações.

Quando pensamos em Disciplinas estamos pensando, grosso modo, em um campo previamente determinado com suas limitações. Sabemos que a História é campo da Disciplina História, bem como entendemos que a Física possui suas próprias considerações, a Filosofia e assim por diante. Essas diversas Disciplinas acadêmicas que, em principio, não possuem relação entre si podem se deter sobre um determinado tema para produzir conhecimento em conjunto: chamamos esta postura de interdisciplinaridade. Isso não implica que estamos construindo novas Disciplinas. Implica apenas que estamos nos debruçando sobre algo de forma a por em diálogo distintos saberes em torno de uma mesma questão[3]. Essa distinção é importante, pois precisamos respeitar as idiossincrasias de cada área.

A discussão em torno da História e da Literatura não é simples. Ela perpassa a noção supracitada para discussões teóricas mais acirradas entre Academias Norte Americanas (conduzidas por autores como Stephen Greenblatt, Louis Montrose, Catherine Gallagher) e dos materialistas culturais britânicos como Jonathan Dollimore, Alan Sinfield e Catherine Belsey. Simplesmente afirmar que a “literatura é importante”, como vários colegas afirmaram, é esvaziar um intenso debate que tem início em 1980 (LAMBERT et al, 2011).

Conclusões

Ao finalizarmos nossas considerações, faz-se importante pensarmos sobre a proposta em si. Ao elaborar um fórum, os professores permitem que alunos afastados dialoguem sobre um determinado tema, troquem informações, pesquisas e hipóteses. O paradigma para esse tipo de educação precisa de uma prática embasada na visão holística do aluno e do conhecimento, na abordagem progressista, no ensino vinculado a pesquisa e uma tecnologia que suporte essa interação, sendo um recurso para aprendizagem e não um fim em si (LEITE et al, 2013).

Foi esta abordagem metodológica que permitiu outras leituras que, em alguns momentos, estão além do nosso material e que possibilitam ao aluno à distância desenvolver a sensação de pertencimento ao universo acadêmico e produzir. Nesta experiência, esperamos ter lançados críticas a fonte e ter demonstrado que considerações simples carecem de certa historicidade e que ao aluno de História, e de qualquer graduação, a crítica é uma postura constante.

Bibliografia.

TRÓIA. Direção: Daphne Glover. National Geograpich, 2004. Disponível em: www.youtube.com.br Acesso em: 01 de Outubro de 2013;

NATGEO. Celebrating 125 years. Disponível em: http://www.nationalgeographic.com/125. Acesso em: 20 de Outubro de 2013;

BELTRÃO, Claudia e DAVIDSON, Jorge. História Antiga, v. 2. Rio de Janeiro: Fundação Cecierj, 2012;

FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. Rio de janeiro: Forense Universitária, 2004;

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2005;

HEINRICH SCHLIEMANN, In: Wikipedia: The Free Encyclopedia. Disponível em: < http://en.wikipedia.org/wiki/Heinrich_Schliemann>. Acesso em: 20 de Outubro de 2013.

LAMBERT, Peter et al. História: Introdução ao ensino e à prática. Porto Alegre: Penso, 2011.

LEITE, Cristiane Luiza Köb et al. A aprendizagem colaborativa na educação a distância on- line. Disponível em: www.scielo.br Acesso em: 15 de Janeiro de 2013.


[1] Utilizaremos a abreviação NatGeo para fazermos referência a este canal.

[2] Cabe destacar que não é apenas Foucault que lida diretamente com este tipo de arqueologia dos fatos históricos. O “fato histórico” não existe previamente. Ele é uma construção da historiográfica que, conscientemente ou não, determinada o que é importante e oblitera o que não é. Para mais detalhes ver: ONETO, Paulo Domenech. Cassirer e a história: uma leitura perspectivista. Revista Universidade Rural: Série Ciências Humanas, Seropédica, RJ: EDUR, v. 28, n. 1-2, p. 38-49, 2006.

[3] Professor Doutor Charles Feitosa, em aula ministrada em 14 de Outubro no curso de extensão Filosofia na Sala de Aula da UNIRIO.

About Raphael Pires

Graduando de História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), atuando em pesquisa da Morte e do Morrer no Brasil Império, no âmbito da formação da Academia Imperial de Medicina e da Faculdade de Medicina do Estado do Rio de Janeiro. Email: irmraphael@gmail.com Lattes:http://lattes.cnpq.br/6927536113143384

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