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Ciência & História sob o olhar de Marc Bloch

Ciência & História sob o olhar de Marc Bloch

As bases teóricas dessa análise fundamentam-se principalmente na obra Apologia da História de Marc Bloch, que inicia seus argumentos ressaltando a importância da memória na cultura ocidental. Por exemplo, no século XIX nossa civilização inicia um processo de “glorificação do seu passado” em um esforço contínuo para se fazer parecer um resultado natural, uma continuidade das civilizações greco-romanas.

Segundo o autor percebemos que ao contrário disso, as transformações ocorridas através do tempo não são lineares, pelo contrário, ocorrem por diversos processos – políticos, sociais, econômicos e culturais – muitas vezes díspares ou até mesmo contraditórios. Ainda de acordo com Marc Bloch, quando nossas sociedades estão em crise, elas sempre recorrem ao passado para tentar entender o que está acontecendo e, quando se sentem inseguras, questionam “se tiveram razão ao interrogar o seu passado ou se o interrogaram devidamente”.

Neste ponto nos voltamos para seguinte pergunta: Para que serve a História? Para ele, ainda que “a história fosse julgada incapaz de outros serviços, restaria dizer a seu favor que ela entretém”. Porém a História é uma disciplina muito mais complexa, até mesmo do que aparenta ser, pois o conhecimento histórico está em constante processo de transformação e mais do que estabelecer “regras” que permitam defini-la como ciência é “importante dizer como ela espera ser capaz de progressivamente ser feita” , ou seja, o seu método.

História como conhecemos hoje, como disciplina acadêmica, passa a ser reconhecida em meados século XIX, período de ascensão das idéias positivistas e do empirismo. Essa nova definição da história como ciência tem origem na absorção dessas idéias pelas ciências humanas. Mas qual será a diferença entre a História definida como ciência e a produção historiográfica anterior a este período?

Andréas Kamp retoma o trabalho de Heródoto para responder esta questão. Heródoto é considerado por muitos como o “pai da história. Porém o autor destaca que quando consideramos Heródoto  um historiador que produziu uma obra de História, “estamos frente a um grave mal-entendido”, pois o significado da palavra História era “simplesmente pesquisa ou inquérito”. Sendo assim, esse caráter investigativo de suas obras não seria de cunho exclusivamente histórico, pois Heródoto relatava de modo indiscriminadotodo o material encontrado narrando detalhes sobre a fauna, a flora, o relevo, os costumes dos povos estudados, a geografia, economia, política, os fatos históricos e tudo o mais que ele julgasse necessário, porém sem se orientar por uma metodologia. Dessa forma percebemos que “A História herodotea… ao mesmo tempo ela é bem mais e bem menos que História” (KAMP, Andréas), por um lado porque sua obra é muito abrangente e por outro porque que não segue um método de pesquisa.

Como ciência, a história é uma disciplina relativamente nova e, assim como todas as ciências humanas, caracterizada por sua subjetividade, seu estudo é “bem mais desfavorável as certezas”  do que o das ciências exatas por exemplo. Ao contrário do que se tentou estabelecer através da escola positivista a história não tem regras gerais nem ciclos em que os fatos históricos se repetem, não há um padrão, pois cada civilização tem suas características próprias em cada tempo. Dentro deste contexto, Marc Bloch enxerga o conhecimento histórico como algo que “mesmo sem se mostrar capaz de demonstrações euclidianas ou de imutáveis leis de repetição… possa, contudo pretender ao nome de cientifico”.

 Marc Bloch define a História como a “Ciência dos homens, no tempo” uma vez que estuda os homens, sua produção e suas relações sociais, políticas, econômicas e culturais em um determinado espaço de tempo. Ele também demonstra que o “historiador é necessariamente levado a nela recortar o ponto de aplicação particular de suas ferramentas” . Ele escolhe o tema, o objetivo, o período, lugar, o foco de suas pesquisas. Mas o que são essas ferramentas que o historiador irá aplicar dentro do estudo do homem em seu tempo? Ela são as formas que ele decidirá analisar suas fontes, ou seja, o seu método.

O conceito de fonte de Marc Bloch agrega a esse termo novos valores e coloca não só os documentos escritos e oficiais como “boas fontes”, como os ditos positivistas, mas também os registros arqueológicos, a oralidade, as testemunhas, “a marca, perceptível aos sentidos, deixada por um fenômeno em si mesmo impossível de captar” . Sobre a variedade de fontes ele diz que “seria uma grande ilusão imaginar que a cada problema histórico corresponde um tipo único de documentos, específico para tal emprego” e que “poucas ciências… são obrigadas a usar, simultaneamente, tantas ferramentas distintas” . Conforme o mesmo, as fontes históricas vão além de seu conteúdo imediato. Cabe ao historiador aplicar o método para descobrir os seus “segredos”, interrogá-la: Quem criou aquele registro? Qual foi a intenção? Para quem foi criado? Qual o seu contexto?

Com isso podemos perceber a importância da memória em nossa sociedade. Vemos a ciência da História como a disciplina que a estuda, compreende e a preserva. Através do uso da razão aplicada sobre as fontes, a História torna-se muito mais do que um passa-tempo para os seus admiradores e adquire a seriedade e a responsabilidade de ser uma ciência com seus próprios métodos. Com as palavras de Marc Bloch concluo: “Nossa civilização terá realizado um grande progresso no dia em que a dissimulação, erigida em método de ação e quase em virtude burguesa, ceder lugar ao gosto pela informação, isto é, necessariamente, pelas trocas de informação” não só no que diz respeito à preservação e ao compartilhamento de fontes históricas, mas também ao interesse pela vida acadêmica, suas investigações e sua busca constante pelo conhecimento.

Referências Bibliográficas

BLOCH, Marc. “Apologia da História, ou o ofício de historiador”.
HERING, Fábio Adriano, “O texto de Heródoto e os seus desdobramentos modernos: uma questão imperialista”, in REVISTA VIRTUAL DE HUMANIDADES, n10, v.5, abr/jun, 2004, pp.4-8;19-23
KAMP, Andréas, “Heródoto o pai da História?” in O pensamento político na História de Heródoto, Colóquio de pesquisa filosófica – UFRJ, 2002.
VEYNE, Paul,”Acreditavam os gregos em seus mitos?”, trad.: Horácio Gonzalez ,SP: Brasiliense, 1984, pp.15-26.(Quando a verdade histórica era tradição e vulgata).

 

About Matheus Blach

Formado em História pelo Centro Universitário UNA (MG) ganhador do prêmio Portal de Ouro; atuou como Pesquisador e Monitor Educacional no Museu dos Brinquedos em Belo Horizonte e foi voluntário no projeto Luz Câmera História do UNA; obteve bolsa iniciação científica pelo UNA e FAPEMIG; é criador e editor da Revista Eletrônica Sobre História; trabalhou como professor de história na rede estadual de ensino de Minas Gerais; é autor do livro "Patrimônio Natural, Sentido Histórico e Valor Cultural"; participou da elaboração do documentário Barba Cabelo Bigode; tem experiência nas áreas de pesquisa: patrimônio cultural, memória, tradição, identidade e relações de poder. Email: matheusblach@sobrehistoria.org Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3601291778128384 Matheus Blach +

2 comments

  1. Qual é a explicação da frase de Marc Bloch??
    frase:”História é o estudo das sociedades humanas em seu tempo”.

    • Olá Beatriz, o que Marc Bloch argumenta é que a história estuda/analisa/interpreta a realidade social das sociedades humanas no decorrer do tempo. Por exemplo, os estudos sobre o Brasil Colonial ou a França Revolucionária etc. Cada sociedade representa a si mesma, criando narrativas sobre seu passado histórico de acordo com suas temporalidades próprias. O estudo dessas “histórias” e “temporalidades” de cada sociedade ao longo tempo é chamada historiografia ou seja, uma “história da história”.

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